AS  CONSTRUÇÕES DA OBJETIVIDADE E SUAS CONSTATAÇÕES DESTOANTES

Quem conhece alguma coisa é capaz de afirmar algo sobre tal coisa. Ao fazer tal afirmação, este alguém dirá algo pertinente à coisa que conhece. A afirmação deve conter algo específico sobre tal coisa, de modo a torná-la algo distinto da realidade em geral e das especificidades de outras coisas: ou seja, deve conter predicados sobre a coisa em vista. Ora, se enunciar predicados é saber, então sabe mais quem conhece mais predicados.

Ademais, o conhecimento de predicados depende de contato com o objeto, seja por contemplação ou por investigação. Assim, saberemos mais à medida que formos capazes de enunciar predicados por meio de nosso contato com o objeto. Por isso, o que sabemos hoje é um desenvolvimento ulterior do que sabíamos no passado. Desta forma, qualquer progresso se deve à acumulação adequada de predicados. A evolução do conhecimento é orientada por sua trajetória histórica: porém, ela nunca se orienta em função de uma teleologia. Ora, se nosso conhecimento é feito de predicados: então, qual seria o seu termo último? Do que essa acumulação de predicados necessita para tornar-se o saber derradeiro? Afinal de contas, é disto que trata uma teleologia do conhecimento: o Saber Derradeiro. Não existe um parâmetro que nos informe de qual predicado é perfectível — por isso, é impossível engendrar um conhecimento perfectível. Na verdade, se conhecemos mais predicados hoje, isto se deve ao legado que recebemos de nossos antecessores. Portanto, hoje o sujeito conta com predicados o bastante para afirmar que conhece seus objetos melhor do que os sujeitos do passado.

O conhecimento se faz conforme se atribui mais e melhores predicados aos objetos cognoscíveis. Assim, se torna possível saber mais e melhor à medida que se agregam predicados novos aos objetos conhecidos pelo sujeito. Neste ínterim, mais do que agregar novos predicados, é preciso definir o que cada predicado tem a dizer sobre os demais: posto que o predicado possa conter um enunciado que se implique com o conteúdo de outro predicado. O predicado é o conteúdo do objeto; logo, os objetos se implicam entre si: daí que os objetos precisam conformar-se uns com os outros. Por isso, a evolução do conhecimento é uma construção da objetividade. Toda construção da objetividade se faz de propriedades. A propriedade diz o que é próprio do objeto: aquilo que o distingue de toda a massa de objetos. Ora, o predicado próprio de um objeto nos informa o que podemos esperar dele em qualquer cenário possível. Tal predicado próprio se faz valer tanto caso o objeto estiver isolado, quanto se estiver interagindo com outro objeto qualquer. Seja como for, o predicado próprio é ubíquo: acontece em qualquer situação em que o objeto se encontre. A propriedade é sempre regular e constante. Na verdade, o próprio objeto é pensado em função da propriedade: se não fosse a propriedade, o objeto seria uma coisa estranha à construção da objetividade. Portanto, há apenas objetos dotados de propriedades: reciprocamente, há apenas propriedades predicadas a algum objeto certo.

Assim, diante de um objeto, o sujeito é capaz de acomodá-lo na inteligência. Desde que tenha o predicado próprio ao objeto, o sujeito pode compará-lo com outros predicados: diante do objeto, o sujeito pode saber se este tem as mesmas propriedades de outros objetos, ou se distingue-se de outro objeto dado.

Os predicados podem se reunir em tipos. Esses tipos são conhecidos por "categorias" — destarte, têm-se tipos de predicados. Porém, as propriedades são predicados especiais: por informarem os predicados próprios do objeto, esses tipos podem ser chamados de "categorias capitais" por serem os elementos axiais em tornos dos quais a objetividade é erigida. Ora, se tudo o que podemos saber de um objeto são seus predicados, então qualquer enunciado capital (i.e., que sempre valha ser dito de um objeto) passa a nos nortear em qualquer afirmação que possamos fazer a respeito de dito objeto. Portanto, as propriedades são os elementos capitais da construção da objetividade.

A constatação faz sentido na medida em que se imbui o fato constatado das propriedades fornecidas pelas categorias capitais. Ora, como a propriedade sempre nos informa o que sempre vale ser dito sobre o objeto, ao se entender qual objeto se encontra no fato constatado, a constatação se torna suscetível de ser escrutinada pelo emprego de predicados. Desta forma, a constatação se torna conhecimento, visto que passamos a saber qual enunciado capital se corresponde ao fato constatado.

Porém, como as constatações nunca são isoláveis — pois que, as diversas constatações estão relacionadas entre si —, significa que os enunciados capitais, também, se relacionam entre si. Assim, quanto mais enunciados que sempre valham ser ditos de seus respectivos objetos forem conhecidos, tanto mais acertadamente enunciaremos conceitos de tais objetos. Por isso, a objetividade é construída conforme as propriedades se ajustam umas em relação às outras. Todos os demais predicados serão compreendidos à medida que se enquadrarem no esquema das categorias capitais.

Deste modo, o conhecimento depende de quão bem enquadrados estão os predicados. Destarte, quanto mais acurado for o emprego de predicados, tanto mais coerentes entre si mesmos se tornarão os objetos. Quanto mais finamente acurada for a dependência entre os predicados, tanto mais nossas constatações se tornarão conhecimento. Então, do feitio de tais constatações será formado o quadro geral de predicados: o encontro da evidência com as propriedades. Assim, o critério da evolução do conhecimento é a acuracidade dos predicados.

Quando isto não acontece significa que há constatações destoantes que se recusam a enquadrarem-se no esquema das categorias capitais.

No momento em que os destoantes adquirem relevância, a construção da objetividade fica comprometida. Ora, uma vez que um fato seja constatado, faz-se preciso dar-lhe um sentido. Este sentido é determinado pelos predicados dados ao objeto e do lugar que estes predicados ganham ao lado dos outros predicados. Porém, se a enunciação de predicados não abarcar todo e qualquer objeto, haverá objetos destoantes, dotados de propriedades desconcertantes. Assim, se um objeto qualquer destoa do quadro geral de predicados, pode vir a comprometer o sentido derivado da enunciação de predicados por propriedades, e assim, invalidar as categorias capitais. Então, a ruína do quadro geral de predicados, visto que este não será capaz de atribuir ou recusar objetividade aos destoantes. Portanto, será preciso construir outra objetividade, dotada de gênese própria, em detrimento da construção da objetividade anterior: uma gênese drástica e radical.

Quando isto acontece, urge elaborar outras categorias capitais e, por conseguinte, todo um novo quadro geral de predicados.

Bibliografia

 

BIRD, A. How to understand Kuhnian incommensurability: some unexpected analogies from Wittgenstein.

BIRD, A. Kuhn on reference and essence. 2004.

BIRD, A. Kuhn's wrong turning. In: Studies in History and Philosophy of Science. 2002.

BIRD, A. Thomas Samuel Kuhn.

BIRD, A. Thomas Kuhn. In: Stanford Encyclopedia of Philosophy, 13agosto2004.

CUPANI, A. Inconmensurabilidad: problemas y fecundidad de una metáfora. Manuscrito, Campinas, v. XIX, n. 2, p. 111-143, out. 1996.

FORSTER, M.R. Hard problems in the Philosophy of science: idealization and commensurability. 2000.

GUTIERRE, J. H. B. O que há de polêmico na idéia kuhniana de incomensurabilidade?. Principia: revista internacional de epistemologia, Florianópolis, v. 2, n. 1, p. 21-35, jun. 1998.

KUHN, T. S. A estrutura das revoluções científicas. 8. ed. ver. Tradução de: Beatriz Vianna Boeira e Nelson Boeira. São Paulo: Perspectiva, 2003.

 

KUHN, T. S. El camino recorrido des La estructura de las revoluciones científicas. Kuhn, hoy, p.141-164.

KUHN, T. S. ¿Qué son las revoluciones científicas? y otros ensayos. Tradução de: José Romo Feito. Barcelona: Paidós Ibérica, 1989.

MCDONOUGH, J. A rosa multiflora by any other name: taxonomic incommensurability and scientific kinds. Kluwer, 2003.

SANKEY, H. Incommensurability — an overview. In: INCOMMENSURABILITY (AND RELATED MATTERS), 1999, Hanover.

SANKEY, H. Incommensurability: The current state of play.

SANKEY, H. Taxonomic incommensurability.

 

Crie um site gratuito com o Yola