Certas coisas são grandes demais para que permaneçam depositadas dentro da cabeça. Daí, faz-se necessário que se emancipem desde o feudo do foro íntimo para a república das palavras.

Hino da Preguiça

 

o brilho da mente

que encontra a si mesma

cintila jovial como um

oásis verdejante

descoberto dentre as areias

do deserto mais escaldante

 

Morfeu revela o caminho

nos sonhos benfazejos

de quem busca uma vida

mais sincera e solidária

 

acomode-se em tua rede

estenda os teus pés para cima

convide a Musa pra um papo

esteja certo de que

a experiência onírica amadurece

os frutos das outras experiências

que valem a pena ser vividas 

A Crise

Março de Dois Mil e Nove Anno Domini.
A pauta: a famigerada crise econômica.
Mais uma... porém, singular.

O que esta crise tem de tão especial?
Dificuldades financeiras são o que sempre foram, não é mesmo?
Ou, será que desta vez há algo de diferente?

Se o crédito se desfaz, o que sobra...?
Não sobra muito o que fazer, certamente...
Afinal, a vasta maioria dos negócios depende de projeções futuras para se concretizar no presente e perdurar o bastante para resultar em lucros.

Há quem fale em tsunami...
Há quem fale em desemprego em massa...
Há quem fale em recessão...

A produção vai encolher...?

Seja como for, isso tudo parece muito (mas, muito mesmo!) grave.

Ora, se não há porquê produzir, então, não há porquê trabalhar.
Mas, se não há porquê trabalhar, então, de onde virá a subsistência?

Será que esta crise é, na verdade, o prenúncio de um flagelo?
Estamos nos encaminhando para a bocarra de um flagelo mundial?

O Ano Novo

doce e afável rebento
que desponta no largo horizonte
teu alvorecer alumia sonhos
e tua luz acalenta a esperança

vem agora mesmo brotar
sobre as intenções das gentes
ao trazer a suave brisa
e fazer um novo ar
mais limpo, mais leve, mais claro, mais sadio

abasteça o fôlego das asas
que buscam um novo poleiro
que seja mais fácil e benfazejo

E, a terra desmanchou...

.
tudo parecia como dantes foi
muitas chuvas e o rio sobe
suas águas excedem as margens
tanto hoje como ontem seriam iguais
.
a terra se desmanchou e o chão se abriu
desta vez o perigo veio d'outro lado
o aguaceiro encharcou o barro
e o barro que dá firmeza ao nosso chão
agora cede escorregando sobre si mesmo
.
os morros estão se desmanchando
se desfazem como castelos de areia
e suas casas caem como castelos de cartas
pra fazer a segurança sumir no ar
.
num rompante a mão da natureza
quebra moradias como se gravetos fossem
tal potência avassaladora enxota
a gente estarrecida de suas próprias vidas
tal portentoso dragão ferino engole
suas vítimas com o braço da morte

Tráfego

Carro.

Carros...

Quantos carros!

É um escarro...

Bah! É pior que um escarro na cara!

E, agora?!
Detesto isto aqui!
Nem música consigo ouvir...
Aqui, me torno imune ao poder das rádios.

Só consigo aguardar, por enquanto...
Estou aqui há horas.
Mas, saí do batente faz vinte minutos!

Como eu preciso de um lanche!
Como eu preciso de um banho!
Como eu preciso me mandar daqui!

Vai, relógio... anda!

Ah! Estamos avançando...
O quê!? Parou, de novo!
Como é que pode?! 

Casais

.
o que é um coração
senão o encontro
de dois pontos de interrogação?
.
duas vidas seguem
levadas por cada alma distinta
mas, eis que acontece:
duas vidas tornam-se uma
.
ambos entram na vida um do outro
se introjetam de tal forma
que passam a levar
apenas uma vida
.
talvez o choque das perguntas
leve à ausência de perguntas
para repouso dos exauridos
esforços pela busca de respostas

Fausto e Glória

.
que avidez é esta
que consome a alma
e se assenhora do coração
expele a razoabilidade
e escurraça a sensatez
para açoitar a decência
.
persegue com devoção a perfídia
celebra a estupidez
exalta a avareza
imola vítima após vítima
no altar da mesquinhez
.
para acessar a vida palaciana
através do império do medo
pela satisfação do próprio umbigo

Um novo começo
.
o ritmo caiu
o foco some
resta uma calma
nem letargia
nem torpor
algo se esgota
para ceder ao novo
.
velhas aspirações fenecem
somem fácil e calmamente
mas a energia permanece
se acumula em estoque
à espera de novos almejos
.
uma transição
uma passagem do antes para o depois
algo novo está se formando
uma nova pulsão
um novo espírito
um novo ritmo

 

Sabichão

Quem é sabichão?
Quem se importa?

Ora, devemos saber quem é o sabichão, visto que, é uma fonte impertinente e petulante de baboseiras.
O sabichão quer fazer crer que sabe muito. O sabichão quer convencer a si mesmo de que sabe muito. O sabichão quer convencer a mim e a você de que não sabemos o que devemos saber. E, assim, quer nos vender a idéia de que deveríamos ouvir o que ele, o sabichão, tem a dizer.

Porém, o tão propalado saber do sabichão é fajuto. Não tem qualquer serventia. Querendo saber muito, o sabichão se esbalda em dizer baboseiras.

Que fazer do sabichão?

Sua mente torpe o deixa de ouvidos moucos. Fazê-lo calar é apenas um remédio provisório. É como tentar se desfazer de uma mosca teimosa.

O Bagaço

Putz! eu estou um bagaço, hoje!
Mas, não importa, não mesmo!
Tenho o dinheiro.
Basta descer até a esquina...


Ali está o desgraçado!
Mas, este miserável — por mais que eu odeie admitir — tem o que preciso. Nada de mais, nada que o dinheiro não resolva.


Me aproximo, embora, nem sequer seja notado.
Pois é, há tempos estou na carteira de clientes dele.
Todo o negócio transcorre rapidamente: sem embaraços.


Agora, sim!
Cadê o meu espelho?
Ah! está na hora de mudar de ares...
Aspiro o pó.
Já estou acostumado...
É bem simples!

Agora, estou pronto!
Aquele jerico vai pagar o que me deve, agora!
Me dirijo ao buraco em que aquele verme se entoca.
Afinal, ele é grande, mas, não é dois!
É agora, ou vai ou racha!

Invado aquela latrina com tudo, e, mando ver no bostinha.
Mas, que!?
Que turma é essa?!
Todo mundo parte pra cima de mim!
Meu queixo já era.
Minha vista escurece.
Minhas pernas vacilam.

Agora, eu estou todo moído!
E, agora, hein!?
Putz! eu sou um bagaço, mesmo!

Daniel das Antas

Daniel das Antas vivia bem.

Daniel das Antas tinha tudo o que uma pessoa normal gostaria de ter.
Porém,Daniel das Antas não era alguém normal.

O primeiro problema de Daniel das Antas eram os trambiqueiros de que se fez cercar.

Você sabe como é,né!?

A canalha é dominada por uma sanha de viver olhando para o próprio umbigo.

Assim,Daniel das Antas aprendeu a viver apenas para os próprios caprichos. Por isso,Daniel das Antas se sentia à vontade em Pindorama,a terra das tramóias. A demanda por maracutaias abunda,e por isso,Daniel das Antas abriu uma firma:Antas&Cia.

Picareta vai,picareta vem... e Daniel das Antas encheu a agenda com "contatos". É isso aí,os negócios iam de vento em popa!

Daniel das Antas se divertia muito em drenar a energia alheia.Mas, a parte de que mais gostava da Antas&Cia era(adivinha?!)a Lavanderia! Além do que,a lavagem de dinheiro é o que fazia os negócios irem pra frente.

Afinal,havia muito dinheiro para ser lavado,e,a tarefa da Antas&Cia é garantir todos os meios e meandros para fazer o dinheiro passar por honesto — trocando em miúdos,camuflagem.

No entanto,Daniel das Antas bisbilhotava muito,muito mesmo! Xeretava,em especial,a seus chegados. Afinal,com trambiqueiro não dá para dormir de touca...
Mas,Daniel das Antas foi tão abelhudo que foi pego com a boca na botija. Agora,há quem queira cortar-lhe as asinhas. Será que conseguem?

Vultos de chumbo

Ele estava andando pela rua. Andando, não: percorrendo! Percorria, rapidamente, a trajetória ao seu compromisso — do tipo inadiável, diga-se.

Daí, um vulto, um flash sombrio. O que está acontecendo?
Ele não saberia dizer: perplexidade.

Dentes, presas enormes.
Nas mãos, garras predatórias. Aquele cano de aço pode matá-lo a qualquer instante.
Então, a exigência, ou melhor, a chantagem: dinheiro em troca da vida.
Dá ou morre!
Quanto vale a vida humana?
O assaltante diz: "nada!"
Por isso, além de ladrão, é assassino.

Vão-se os anéis, mas, ficam os dedos.
Se ele tivesse sorte...
Mas, hoje, deu azar!

O chumbo quente atravessa as vísceras, e, o sangue se esvai.
O carniceiro é rápido: pega tudo e se manda.

E, agora?!
Ora, ele está ali, aquele na cadeira de rodas.
A bala se alojou na coluna baixa...

Lições!? Cadê?!

Cá estou eu... em mais uma longa manhã...!
Por que toda aula tem que ser uma prova de paciência?
Acho que estamos aqui para aprender a aguentar qualquer chatura...
Confesso que no primeiro ano, bem no começo, achava demais ir pra escola, afinal de contas, todos os meninos maiores iam...
E, então, ia ser a minha vez!
Mas, quê!?
Todo dia tenho que me sentar aqui, e esta joça fica se arrastando, todo santo dia!
Todas essas aulas, e o que eu sei?
Passei de ano tantas vezes, e daí?
O que eu estou fazendo aqui, afinal?

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